Análise: 'A Forma da Água' e o tempo


A Forma da água, dirigido por Guillermo Del toro e ganhador do Oscar de melhor Filme, vem levantado várias questões, desde da qualidade técnica até questões ideológicas. Mas o que há por debaixo das (importantes) camadas ideológicas e de análise social?


A narrativa acompanha Eliza, uma faxineira muda que, limpando um compartimento secreto do governo, se depara com um homem-peixe pelo qual se desenvolve um profundo relacionamento. Del Toro, como a maioria dos cineastas, é um contador de histórias. Mas não qualquer tipo de histórias. Geralmente, seus filmes flertam com dois gêneros ou moldes bem específicos: O terror e o conto de fadas. O primeiro: Representado pelos monstros (Assinatura muito forte do diretor). Ele coloca características do herói no mostro convencional e transforma um humano no vilão, atribuindo caráter duvidoso e anomalias físicas; o visual gótico e o assunto recorrente da morte e sua ressignificação (como enfatizou bem o vídeo do Entre Planos, o fato dele ser mexicano, o dia dos mortos pesa muito para a morte como algo redentor.) Já o conto de fadas, por definição, tem seus padrões e regras próprias. As vezes em um tom infantil, as narrativas mostram características surreais, descoladas da realidade, mas que gera encantamento.


Nenhum de seus filmes funde tão bem esses dois gêneros. A Forma da Água é tanto um terror clássico, com um monstro trágico, incompreendido e com motivações odiáveis, quanto um conto de fadas; com lógica própria, um romance redentor e, outro tema muito recorrente para Del Toro, seu tempo próprio.


Na versão francesa de A Bela e a Fera (La Belle et la Bête de 1946), um dos filmes favoritos do Guillermo, o diretor começa com um disclaimer: Os créditos começam na tela de giz e com um texto pedindo para o espectador relevar algumas coisas e aproveitar o filme como uma criança. Pedindo a suspensão de descrença. De fato, isso é exigido do espectador com várias cenas não habituais, principalmente pensando nos padrões de hoje. O monstro é apresentado sem clima ou suspense, vários conflitos são resolvidos do nada, com regras que não foram explicadas antes. Isso, com um tempo muito próprio. Ele não espera criar climas, mexer sua expectativa e brincar com ela, como acontece com a maioria dos filmes. É como se o espectador não existisse para os momentos de virada, ou o terror. Não que eles não existam, mas não é o foco. O que realmente importa é a beleza, maravilhamento.


Isso é muito forte e claro na direção de Del Toro. Seu mundo tem um ritmo próprio, as vezes, os fatos vão se atropelando para que a história aconteça. Mas, nesse caso, isso não é um demérito. Ele é consciente disso: O filme é conduzido por relógios. Logo depois da cena inicial com Eliza debaixo da água (mostrando seu isolamento/não pertencimento para o mundo) a câmera foca em um despertador, que leva a protagonista para a realidade. O Movimento de pessoas olhando para o relógio, ou da câmera usando esse objeto como transição, é recorrente durante o filme todo até seu final. Na folha atrás do calendário (tempo de novo), há uma frase, como um biscoito da sorte:


“Time is But a River flowing From our Past”


“O tempo é nada mais que um rio que flui do nosso passado"


Nesse momento, o filme faz o link da água com o tempo. Debaixo da água, as coisas param, ficam mais lentas, parece ter um tempo próprio. Assim como o filme. A referência para cinema (mais especificamente a Era de Ouro de Hollywood, acontece o filme todo e é central para a expressão da personagem central. O fato dela morar em um cinema (sempre vazio) e a água invadir a sala de projeção, é bem simbólica. A água e o tempo do cinema tem efeitos semelhantes. Para te fazer acreditar, esse tempo peculiar pede pela sua suspensão de descrença. Para Acreditar que aquela história seja possível apenas naquele universo. E por isso o cinema se torna um momento tão especial. É onde histórias assim são possíveis. Por mais que os discursos políticos sejam importantes (e são muito importantes), nessa recorrente onda de problematização, parece que perdemos a sensibilidade de ver uma história por ela mesma. Com sua dramaticidade e peculiaridades que só se encontram na ficção.


A maestria da direção do Del Toro, não está só no design de produção, efeitos práticos e maquiagem, mas nessa sensibilidade de simplesmente querer contar histórias únicas, que só poderiam ser vivenciadas dessa forma, imergido em um universo próprio. Debaixo da água.


REFERÊNCIAS:


Vídeo do canal entre planos sobre o filme:

https://www.youtube.com/watch?v=53Hnt0vDUkQ





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